Futebol Internacional

Por que o Chelsea foi buscar Dibu Martínez aos 33 anos para resolver problema de oito temporadas

Dibu Martínez em ação pela Seleção Argentina durante a Copa do Mundo de 2026
Campeão mundial, Dibu Martínez chega ao Chelsea aos 33 anos para assumir a posição de goleiro – Foto: FIFA/Divulgação

O Chelsea construiu nos últimos anos um dos projetos mais jovens do futebol europeu, mas precisou abrir uma exceção importante para tentar resolver um problema antigo. Aos 33 anos, e a poucos dias de completar 34, Emiliano “Dibu” Martínez chega a Stamford Bridge para assumir uma posição que nunca mais encontrou estabilidade duradoura desde a saída de Thibaut Courtois, em 2018.

A escolha chama ainda mais atenção pelo preço. O Chelsea acertou com o Aston Villa uma transferência de apenas £7,5 milhões (cerca de R$ 52 milhões). Dibu assinará por duas temporadas, com opção por uma terceira.

Mas o valor baixo explica apenas parte da decisão. Segundo análise publicada pelo Guardian neste sábado (29), a contratação também sinaliza uma mudança de filosofia: em vez de apostar novamente em potencial e esperar desenvolvimento, o Chelsea foi atrás de um goleiro campeão mundial, acostumado à Premier League e preparado para assumir imediatamente a camisa 1.

Chelsea nunca substituiu Courtois de verdade

Para entender a chegada de Dibu, é preciso voltar oito anos.

Thibaut Courtois deixou o Chelsea em 2018, quando foi vendido ao Real Madrid. Desde então, o clube londrino investiu repetidamente para encontrar um sucessor.

A primeira tentativa foi também a mais cara.

O Chelsea pagou aproximadamente £71,6 milhões por Kepa Arrizabalaga, então com 23 anos, ao Athletic Bilbao. O espanhol se tornou o goleiro mais caro da história do futebol, mas nunca conseguiu reproduzir em Stamford Bridge a segurança que Courtois havia proporcionado.

Depois veio Édouard Mendy.

Contratado do Rennes em 2020, o senegalês foi quem mais se aproximou de encerrar a discussão. Tornou-se titular da equipe de Thomas Tuchel e teve papel importante na conquista da Champions League de 2020/21.

Mas nem Mendy conseguiu transformar a posição em uma solução de longo prazo. Perdeu espaço posteriormente para Kepa e deixou Londres em 2023.

A busca recomeçou.

Chelsea gastou uma fortuna procurando seu goleiro

Os números ajudam a dimensionar o problema.

Levantamento da FourFourTwo já apontava em 2024 que o Chelsea havia gasto aproximadamente £160 milhões em goleiros desde a saída de Courtois. E a conta ainda aumentaria depois daquele levantamento.

Além de Kepa e Mendy, chegaram nomes como Gabriel Slonina, Robert Sánchez, Djordje Petrovic e Filip Jörgensen.

A estratégia também mudou.

Sob a nova propriedade, o Chelsea passou a privilegiar jogadores jovens, contratos longos e atletas com potencial de valorização. O gol não escapou dessa lógica.

Petrovic tinha 23 anos quando chegou. Jörgensen, 22. O belga Mike Penders foi contratado do Genk ainda aos 19 anos, com vínculo até 2032.

O problema é que o clube continuou sem uma certeza imediata.

Na temporada passada, Robert Sánchez disputou 50 partidas e Jörgensen outras 12. Em determinado momento, o então treinador Liam Rosenior chegou a alterná-los, e a própria indefinição sobre quem deveria ser o número 1 tornou-se motivo de discussão na Inglaterra.

Dibu quebra essa lógica.

Dibu representa uma mudança na estratégia do Chelsea

Dibu Martínez defende o Aston Villa em partida da Premier League
Dibu Martínez deixa o Aston Villa após seis temporadas e segue para o Chelsea por £7,5 milhões – Foto: Aston Villa/Divulgação

O argentino não chega para ser desenvolvido.

Também dificilmente será revendido por um valor superior no futuro.

O Chelsea está comprando experiência para o presente.

Martínez será o jogador mais velho do elenco de Xabi Alonso e chega com um currículo que nenhum outro goleiro disponível no clube possui. É campeão mundial pela Argentina, venceu duas vezes o Troféu Yashin e acumula seis temporadas como titular do Aston Villa na Premier League.

Esse é justamente o ponto levantado pelo Guardian: depois de tantas apostas, o Chelsea finalmente decidiu priorizar certeza e personalidade em uma posição especialmente sensível.

E existe uma diferença importante em relação às contratações anteriores.

Dibu não precisa aprender a Premier League.

O argentino chegou ao futebol inglês ainda jovem para defender o Arsenal e, depois de vários empréstimos, finalmente se consolidou na elite quando foi vendido ao Aston Villa em 2020.

Desde então, transformou-se em um dos goleiros mais reconhecidos do futebol mundial.

Erros de Robert Sánchez aceleraram decisão

O momento da contratação também não é coincidência.

Xabi Alonso começou a temporada ainda disposto a trabalhar com Robert Sánchez como titular. Mas a vitória por 3 a 2 sobre o Fulham na estreia da Premier League voltou a expor um problema recorrente.

O espanhol falhou no primeiro gol do Fulham e voltou a transmitir insegurança em outro lance que terminou no segundo gol do adversário. O Guardian classificou a posição como uma fraqueza evidente do Chelsea mesmo depois da vitória.

Poucos dias depois, a prioridade mudou.

O Aston Villa já havia contratado Zion Suzuki por quase £30 milhões para assumir seu gol, enquanto Martínez buscava um novo desafio. Seus representantes entraram em contato com o Chelsea e as conversas avançaram rapidamente.

O encaixe apareceu quase por acaso no fim da janela: um clube precisava de experiência; o outro precisava negociar um goleiro experiente.

E o preço tornou a oportunidade difícil de ignorar.

Dibu custou quase dez vezes menos que Kepa

Existe uma comparação que eu exploraria porque traduz muito bem a mudança de estratégia.

Em 2018, o Chelsea tentou substituir Courtois investindo £71,6 milhões em Kepa, então com 23 anos.

Oito anos depois, está pagando £7,5 milhões por Martínez, prestes a completar 34.

Em valores nominais, portanto, Dibu custa menos de 11% do que o Chelsea desembolsou por Kepa.

São operações quase opostas.

Kepa representava potencial, longevidade e possibilidade de valorização. Martínez representa experiência, rendimento imediato e risco financeiro relativamente baixo.

O Chelsea aparentemente concluiu que, para essa posição específica, não precisa encontrar o próximo grande goleiro. Precisa simplesmente encontrar alguém capaz de ser o número 1 agora.

E Mike Penders pode ser o goleiro do futuro

Isso não significa que o Chelsea abandonou completamente sua política de jovens.

Pelo contrário.

O clube ainda tem Mike Penders, belga contratado do Genk e tratado internamente como um jogador de enorme potencial. O Chelsea fechou sua contratação quando ele tinha apenas 19 anos e lhe deu contrato até 2032.

A chegada de Dibu pode, inclusive, resolver duas questões ao mesmo tempo.

Martínez assume a responsabilidade imediatamente, enquanto Penders ganha tempo para continuar seu desenvolvimento sem precisar carregar a pressão de solucionar sozinho uma posição problemática.

É uma espécie de ponte entre presente e futuro.

Dibu assinando por dois anos, com opção por mais um, também combina perfeitamente com essa leitura.

Aos 33 anos, Dibu chega para entregar o que Chelsea mais procura: estabilidade

Dibu Martínez durante treinamento do Aston Villa antes de partida da Premier League
Experiência de Dibu Martínez pesou na decisão do Chelsea de apostar no argentino – Foto: Aston Villa/Divulgação

O Chelsea não contrata apenas as defesas de Martínez.

Contrata também um goleiro acostumado a jogos grandes, cobranças de pênaltis e ambientes de enorme pressão.

Foi protagonista do título mundial da Argentina em 2022 e novamente teve papel importante na campanha da seleção na Copa de 2026. No Aston Villa, ajudou o clube a retornar à Champions League e encerrou sua passagem depois de seis temporadas.

Naturalmente, contratar um goleiro prestes a completar 34 anos também possui riscos. Dibu não representa uma solução para a próxima década e o Chelsea terá de administrar o futuro de Sánchez, Jörgensen e seus outros goleiros.

Mas essa talvez seja justamente a principal mudança.

Depois de oito temporadas tentando encontrar o próximo Courtois, o Chelsea parece ter desistido, ao menos momentaneamente, de procurar uma resposta definitiva.

Por £7,5 milhões, encontrou uma solução para agora.

E, depois de Kepa, Mendy, Sánchez, Petrovic, Jörgensen e tantas tentativas, talvez seja exatamente isso que o gol de Stamford Bridge estivesse precisando.

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