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Por que o Brasil quase não enfrenta europeus? Nations League ajuda a explicar

Douglas Santos, jogador da Seleção Brasileira, domina a bola diante de um adversário da Austrália durante amistoso
Brasil enfrenta a Austrália duas vezes nesta Data Fifa enquanto as principais seleções europeias disputam a Nations League – Foto: CBF/Divulgação

A comparação desta Data Fifa chama atenção. Enquanto Inglaterra e Espanha se enfrentam em Wembley neste sábado (26), outras potências europeias disputam uma sequência de confrontos como Holanda x Alemanha, Itália x Bélgica, Bélgica x França, Espanha x Croácia, França x Itália e Croácia x Inglaterra.

Do outro lado do mundo, o Brasil iniciou seu ciclo até a Copa de 2030 com uma programação bem diferente. A Seleção enfrenta a Austrália duas vezes e depois viaja à Índia para um amistoso inédito contra os donos da casa. Em novembro, os adversários serão Japão e Singapura, em dois jogos disputados em território singapuriano.

A diferença não é simplesmente uma escolha da CBF por adversários de outros continentes. Encontrar espaço no calendário para enfrentar as principais seleções europeias ficou mais difícil desde a criação da Liga das Nações da Uefa.

O torneio, iniciado em 2018, transformou Datas Fifa que anteriormente comportavam mais amistosos em rodadas de uma competição oficial entre as próprias seleções europeias. A consequência é que Brasil, Argentina e outras equipes de fora da Europa passaram a encontrar menos oportunidades para enfrentar as potências do continente.

Por que o Brasil quase não enfrenta seleções europeias?

A resposta começa pelo calendário.

A FIFA determina as janelas nas quais os clubes precisam liberar jogadores para suas seleções. Dentro desses períodos, porém, confederações organizam suas próprias competições.

Em 2026, a principal janela do segundo semestre acontece entre 21 de setembro e 6 de outubro. Diferentemente de uma Data Fifa convencional de duas partidas, ela permite até quatro jogos por seleção. Em novembro haverá outra janela, de 9 a 17, com espaço para dois compromissos.

A Europa utiliza justamente a janela atual para disputar quatro rodadas da Nations League.

A Inglaterra, por exemplo, enfrenta Espanha, República Tcheca, Croácia e novamente os tchecos. A Espanha encara Inglaterra, Croácia, República Tcheca e novamente a Croácia. França e Bélgica também estão ocupadas com partidas oficiais da competição.

Isso praticamente fecha a agenda das principais seleções europeias durante essas semanas.

O Brasil, sem uma competição oficial neste período após a Copa do Mundo, procura adversários disponíveis para amistosos. Nesta Data Fifa, encontrou Austrália e Índia.

Nations League mudou espaço dos amistosos

Essa redução não é uma consequência acidental escondida pela Uefa. Ela está na própria origem da Nations League.

Troféu da Liga das Nações da Uefa exposto diante de um painel com bandeiras de seleções europeias
Nations League foi criada pela Uefa para substituir parte dos amistosos por confrontos competitivos entre seleções europeias – Foto: Uefa/Divulgação

Quando explicou a criação do torneio, a entidade afirmou que federações, treinadores, jogadores e torcedores consideravam que amistosos internacionais não ofereciam competição esportiva suficiente. A solução foi criar partidas oficiais entre seleções de níveis semelhantes, com acesso, descenso e possibilidade de título.

A primeira Nations League começou em setembro de 2018. A Uefa descreve até hoje uma de suas missões como minimizar amistosos considerados sem significado e substituí-los por confrontos competitivos.

Na prática, portanto, aquilo que melhorou o calendário interno europeu também tornou mais escasso um tipo específico de partida: Europa x resto do mundo fora das Copas.

A própria Uefa já reconhecia esse efeito antes mesmo da estreia da competição. Ao apresentar o formato, informou que haveria menos amistosos, embora ressaltasse que pretendia preservar oportunidades para que seleções europeias enfrentassem equipes de outras confederações.

A dificuldade está em fazer essas oportunidades coincidirem com a disponibilidade do Brasil.

Brasil enfrentou apenas quatro europeus entre as Copas

O último ciclo oferece uma dimensão clara dessa mudança.

Entre a eliminação brasileira para a Croácia na Copa de 2022 e o início do Mundial de 2026, a Seleção enfrentou adversários europeus em apenas quatro amistosos.

Vini Jr., jogador do Brasil, disputa a bola com Malo Gusto, adversário da França, durante amistoso entre as seleções
Brasil enfrentou a França em março de 2026, em um dos quatro amistosos contra europeus disputados pela Seleção entre as Copas de 2022 e 2026 – Foto: CBF/Divulgação

Em março de 2024, jogou contra Inglaterra e Espanha. Dois anos depois, na última Data Fifa antes da preparação final para a Copa, enfrentou França e Croácia nos Estados Unidos.

A própria CBF tratou os jogos de março de 2026 como parte de um planejamento para colocar a Seleção diante de adversários fortes e de diferentes escolas antes do Mundial. França e Croácia estavam entre os principais colocados do ranking mundial naquele momento.

Foram, portanto:

  • Inglaterra — março de 2024
  • Espanha — março de 2024
  • França — março de 2026
  • Croácia — março de 2026

Quatro partidas contra europeus durante praticamente todo o período de preparação entre uma Copa e outra.

O número ajuda a explicar por que cada oportunidade passou a ter peso maior no planejamento da Seleção.

Nations League não é a única explicação

Seria simplista, porém, atribuir toda a dificuldade à competição da Uefa.

O calendário das seleções também é ocupado pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo, Eliminatórias da Eurocopa, Eliminatórias Sul-Americanas e outras competições continentais.

O próprio Brasil passa longos períodos indisponível para amistosos porque disputa as Eliminatórias da Conmebol.

A FIFA, por sua vez, continua responsável pelo calendário internacional que estabelece as janelas para jogos de seleções. A Nations League não criou novas Datas Fifa para a Europa: ela passou a ocupar com partidas oficiais datas que já existiam. A Uefa destaca justamente que sua competição oferece mais confrontos competitivos sem acrescentar novas janelas ao calendário.

É essa diferença que ajuda a entender a mudança.

Antes, uma Data Fifa livre de Eliminatórias oferecia maior possibilidade de organizar amistosos. Agora, quando uma janela europeia é reservada à Nations League, as seleções daquele continente já têm adversários definidos dentro do próprio sistema da Uefa.

Super Data Fifa deixa diferença evidente

Poucas janelas ilustram isso tão claramente quanto a atual.

A FIFA concentrou setembro e outubro de 2026 em uma janela ampliada, permitindo até quatro partidas entre 21 de setembro e 6 de outubro.

A Uefa aproveitou o período para abrir a edição 2026/27 da Nations League. A competição começou em 24 de setembro, e as quatro primeiras rodadas serão disputadas dentro dessa mesma janela.

Só entre as seleções da elite europeia, a agenda oferece confrontos como Holanda x Alemanha, Inglaterra x Espanha, Bélgica x França, Espanha x Croácia, Croácia x Inglaterra e França x Itália.

Yamal e Bellingham, jogadores de Espanha e Inglaterra, respctivamente, disputam a bola durante a final da Euro 2024.
Espanha e Inglaterra voltam a se enfrentar neste sábado, agora pela Liga das Nações; a foto é da final da Euro 2024 – Foto: Uefa/Divulgação

O Brasil tem Austrália, Austrália e Índia. A Argentina também precisa buscar adversários fora do circuito das principais seleções europeias.

Não significa que esses amistosos sejam inúteis. A CBF afirma que o período servirá para observações e para o início da preparação rumo à Copa América de 2028 e ao Mundial de 2030. Carlo Ancelotti convocou 26 jogadores para a primeira Data Fifa depois da Copa.

A diferença está no tipo de teste disponível.

Enquanto Inglaterra e Espanha podem medir forças entre si em uma partida oficial, Brasil e Argentina precisam encontrar no mercado internacional as seleções que também estejam livres.

Dificuldade continua no ciclo para a Copa de 2030

A virada do ciclo não resolveu o problema.

Depois dos dois jogos contra a Austrália e do confronto com a Índia, o Brasil encerrará 2026 novamente na Ásia. Em novembro, enfrenta o Japão no dia 14 e Singapura no dia 17. Os dois amistosos serão realizados no Estádio Nacional de Singapura.

Também nessa janela a Nations League estará em andamento. A fase de grupos europeia prossegue até 17 de novembro, exatamente o último dia da Data Fifa e também a data de Singapura x Brasil.

Reportagens sobre o anúncio dos amistosos brasileiros registraram que a indisponibilidade das seleções europeias envolvidas em compromissos oficiais da Uefa foi um dos fatores para a definição da agenda.

Isso não significa que o Brasil tenha deixado de enfrentar europeus definitivamente. Março de 2026 mostrou que é possível encontrar janelas, e a preparação para grandes torneios continuará abrindo oportunidades.

Mas tornou-se necessário encaixar esses jogos nos espaços deixados pelo calendário competitivo europeu.

A Nations League resolveu um problema europeu, e criou outro fora da Europa?

Essa talvez seja a melhor maneira de formular a questão.

Para a Uefa, a Nations League cumpriu justamente o objetivo para o qual foi criada. Amistosos considerados pouco competitivos deram lugar a partidas oficiais, seleções passaram a enfrentar adversários de nível semelhante e o calendário europeu ganhou uma competição com acesso, descenso e título.

Para quem está fora desse sistema, porém, surgiu uma consequência prática: as principais seleções europeias passaram a jogar muito mais entre elas.

O Brasil continua podendo enfrentar Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, Itália ou outras potências. O problema é encontrar uma Data Fifa em que os dois lados estejam simultaneamente disponíveis.

Neste sábado, o contraste pode ser visto no próprio calendário.

Enquanto a Espanha, atual campeã mundial, entra em Wembley para enfrentar a Inglaterra pela Nations League, o Brasil está entre dois amistosos contra a Austrália antes de viajar à Índia.

Não são dois calendários separados pela FIFA. São seleções utilizando a mesma janela internacional de maneiras diferentes, e uma competição criada há oito anos ajuda a explicar por que os caminhos se distanciaram tanto.

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