
Enquanto a Índia se prepara para receber a Seleção Brasileira em um dos amistosos mais aguardados de sua história, um dos maiores jogadores do país olha para a festa e enxerga outra coisa: um “circo”.
Bhaichung Bhutia, ex-capitão e um dos principais ídolos do futebol indiano, voltou a criticar duramente a realização de Índia x Brasil, marcado para este sábado (3), às 11h (de Brasília), no Salt Lake Stadium, em Calcutá.
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Em entrevista publicada pelo The Indian Express na véspera da partida, Bhutia reconheceu que enfrentar o Brasil representa uma experiência especial para jogadores e torcedores. Para ele, porém, o problema está na prioridade escolhida pela Federação de Futebol da Índia (AIFF).
— Do ponto de vista de um jogador ou de um torcedor, sim, todo mundo adoraria. Como jogador, eu teria adorado enfrentar o Brasil — afirmou Bhutia ao Indian Express.
Na sequência, o ex-atacante questionou se a função da federação deveria ser proporcionar aos atletas uma partida contra a Seleção Brasileira ou trabalhar pelo desenvolvimento do futebol indiano no longo prazo.
A crítica ganha força pelo contexto. A Índia desistiu de participar da primeira edição da FIFA ASEAN Cup depois que o calendário da competição entrou em conflito com o amistoso diante do Brasil. O torneio reuniria os indianos a adversários muito mais próximos de seu nível, como Indonésia, Malásia e Singapura.
Para Bhutia, trocar pelo Brasil a possibilidade de disputar ao menos três partidas competitivas contra seleções asiáticas foi uma escolha difícil de justificar.
Por que Bhaichung Bhutia chamou Índia x Brasil de ‘circo’?
O termo mais contundente utilizado pelo ex-jogador surgiu quando ele ampliou a crítica para a situação atual do futebol do país.

Bhutia integra o comitê executivo da própria AIFF como membro cooptado. Segundo ele, a entidade registrou déficit de aproximadamente 14 milhões a 16 milhões de rúpias no último orçamento, procura patrocinadores e convive com clubes das duas principais competições nacionais enfrentando dificuldades financeiras.
É nesse cenário que ele considera incoerente gastar dezenas de milhões de rúpias para levar o Brasil a Calcutá.
— Quando você tem um presidente sem rumo, tudo vira um circo. É isso que está acontecendo no futebol indiano — disparou Bhutia ao Indian Express.
O ex-capitão ainda relacionou sua crítica à trajetória recente da seleção no ranking da Fifa. A Índia chegou a entrar no top 100 nos últimos anos, mas atualmente aparece na 138ª colocação.
Para Bhutia, portanto, a presença da pentacampeã mundial pode produzir uma grande noite em Calcutá, mas não responde aos problemas estruturais que fizeram o futebol indiano perder terreno.
Quanto custou para a Índia enfrentar o Brasil?
Este é um ponto em que é importante separar números confirmados de estimativas divulgadas pela imprensa local.
Bhutia afirmou ao Indian Express que circulam valores na faixa de 50 milhões a 60 milhões de rúpias relacionados ao pagamento para a realização do amistoso. Em manifestações anteriores, o ex-jogador chegou a mencionar estimativas entre 50 milhões e 70 milhões de rúpias.
Os números, porém, são contestados.
A AIFF já rejeitou as alegações de Bhutia sobre os custos e o desafiou a apresentar evidências para sustentá-las. Portanto, não há base para tratar a cifra mais alta como o valor oficial desembolsado pela federação.
O argumento de Bhutia permanece o mesmo independentemente do montante exato: para ele, recursos desse tamanho teriam impacto mais duradouro se fossem aplicados na estrutura do futebol local.
Ídolo da Índia já havia pedido boicote ao jogo contra o Brasil
A declaração às vésperas da partida não representa uma mudança de posição.
Bhutia se tornou uma das primeiras vozes importantes do futebol indiano a questionar o amistoso desde que ele foi anunciado, em julho.
Em agosto, foi ainda mais longe: pediu publicamente que os próprios torcedores boicotassem Índia x Brasil.
— Boicotem esse jogo contra o Brasil. Acho que essa seria uma grande mensagem — declarou na ocasião ao programa 420 Grams, em fala reproduzida pelo Indian Express.
Na ocasião, Bhutia argumentou que o dinheiro destinado a uma única partida de 90 minutos poderia financiar projetos de longo prazo, como a construção de campos de futebol society e programas de desenvolvimento esportivo. Também alertou para a situação financeira de clubes tradicionais de Bengala.
O ex-capitão não se coloca, porém, contra a oportunidade de os jogadores indianos enfrentarem estrelas brasileiras.
Sua crítica é à estratégia usada para produzir essa oportunidade.
Bhutia diz que Índia deveria aprender com relação entre Brasil e Japão
Na entrevista publicada nesta sexta-feira, Bhutia apresentou o Japão como exemplo do tipo de relação que gostaria de ver entre Índia e Brasil.
Em vez de investir em um único amistoso, lembrou que os japoneses recorreram durante décadas ao conhecimento brasileiro para desenvolver seu próprio futebol. Jogadores e treinadores do Brasil participaram da formação da J-League, enquanto Zico chegou posteriormente ao comando da seleção japonesa.
Para o antigo atacante, uma colaboração estrutural desse tipo produziria benefícios maiores do que simplesmente trazer a Seleção para uma partida.
A comparação também ajuda a explicar uma frase central de sua crítica.
Bhutia disse que gostaria de ver a Índia enfrentar o Brasil por mérito esportivo, e não apenas porque conseguiu organizar e financiar um amistoso contra uma das principais seleções do mundo.
Quem é Bhaichung Bhutia?
Bhaichung Bhutia é considerado um dos maiores jogadores da história da Índia e foi durante anos a principal referência internacional do futebol do país.

Nascido em Sikkim, o ex-atacante construiu uma carreira marcada principalmente pelas passagens por East Bengal e Mohun Bagan, dois gigantes de Calcutá, além de ter atuado no futebol inglês pelo Bury.
Pela seleção, foi capitão e disputou mais de 100 partidas, tornando-se um dos rostos da modalidade em um país no qual o críquete domina o cenário esportivo.
Sua importância ajuda a explicar por que as críticas ao amistoso ganharam repercussão tão grande na imprensa indiana. Bhutia não observa a administração do futebol apenas de fora: atualmente integra, como membro cooptado, o comitê executivo da própria AIFF.
Brasil chega a Calcutá, mas festa não é unanimidade
O contraste ficou ainda mais evidente nas horas anteriores à partida.
O Salt Lake Stadium recebeu a preparação para o amistoso e cartazes de Índia x Brasil foram espalhados pelos arredores. A recepção na cidade, porém, foi mais discreta do que se poderia imaginar para uma visita da Seleção Brasileira.
Reportagem do próprio Indian Express publicada na véspera relatou que ainda havia ingressos disponíveis em diversos setores e que o movimento de torcedores nos arredores do hotel brasileiro e do estádio era limitado.
É um cenário curioso para uma cidade com forte relação histórica com o futebol sul-americano. Calcutá recebeu Pelé com o New York Cosmos em 1977 e Lionel Messi com a Argentina em 2011.

Neste sábado, será a vez de a Seleção Brasileira entrar no Salt Lake Stadium.
Para os jogadores indianos, Bhutia admite que será uma oportunidade inesquecível.
Para os torcedores, um espetáculo raro.
Mas, para um dos maiores ídolos que o futebol da Índia já produziu, permanece a pergunta que atravessa toda a polêmica: depois que os 90 minutos terminarem, o que Índia x Brasil terá deixado para o futebol do país?
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