Futebol Brasileiro

Kelly Key foi à Arena MRV, mas poucos sabem que cantora preside clube de futebol na África

Kelly Key posa no campo de treinamento do Kiala FC, clube de futebol de base que preside em Angola.
Kelly Key é presidente do Kiala FC, projeto de formação de jogadores criado em Angola – Foto: Kiala FC/Divulgação

Quem viu Kelly Key nas arquibancadas da Arena MRV neste domingo (16) poderia imaginar apenas mais uma celebridade acompanhando uma partida do Campeonato Brasileiro. A cantora esteve no estádio e viu o Atlético-MG vencer o Grêmio por 3 a 0.

Mas havia um motivo bem diferente por trás da presença da artista em Belo Horizonte.

Kelly Key chegou à casa do Galo como dirigente de futebol.

Conhecida nacionalmente por músicas como “Baba”, “Cachorrinho”, “Adoleta” e “Anjo”, que fizeram sucesso principalmente nos anos 2000, ela hoje divide sua rotina com uma atividade que pouca gente associaria à carreira construída nos palcos.

Kelly é presidente e cofundadora do Kiala FC, clube localizado em Angola e dedicado principalmente à formação de jovens jogadores.

E a passagem por Minas Gerais marcou um novo capítulo desse projeto.

Antes de assistir ao jogo na Arena MRV, Kelly e o marido, o empresário angolano Mico Freitas, estiveram na Cidade do Galo. O casal conheceu a estrutura destinada às categorias de base e formalizou uma parceria entre Atlético-MG e Kiala FC.

O objetivo é aproximar jovens talentos descobertos em Angola de um dos principais centros de formação do futebol brasileiro.

Kelly Key foi ao Atlético-MG como dirigente de futebol

Kelly Key durante visita à Cidade do Galo, centro de treinamento do Atlético-MG, em Belo Horizonte
Kelly Key visita a Cidade do Galo para oficializar parceria entre o Atlético-MG e o Kiala FC – Foto: Atlético-MG/Divulgação

A visita começou na manhã de domingo.

Kelly e Mico foram recebidos na Cidade do Galo por Luiz Carlos de Azevedo, diretor-geral das categorias de base do Atlético. Eles conheceram campos, academia, espaços de fisioterapia, alojamentos e também as obras realizadas na estrutura destinada aos jovens jogadores.

A aproximação não começou agora. Atlético e Kiala já discutiam uma possível parceria desde 2025.

Neste domingo, porém, o acordo avançou de forma oficial.

Na prática, o Kiala passa a funcionar como um ponto estratégico para o Atlético na identificação e no desenvolvimento de talentos no continente africano.

Depois da passagem pelo CT, Kelly e Mico seguiram para a Arena MRV.

Ali, a cantora trocou momentaneamente a função de dirigente pela de espectadora e acompanhou a vitória atleticana por 3 a 0 sobre o Grêmio, pela 23ª rodada do Brasileirão.

A imagem de Kelly em um jogo do Galo, portanto, esconde uma história que começou a milhares de quilômetros de Belo Horizonte.

Como Kelly Key foi parar no comando de um clube em Angola?

Kelly Key e Mico Freitas posam com integrantes do Kiala FC no campo de treinamento do clube em Angola
Kelly Key e o marido, Mico Freitas, com integrantes da comissão técnica do Kiala FC – Foto: Kiala FC/Divulgação

A ligação tem relação direta com Mico Freitas.

Angolano, o empresário é casado com Kelly Key há mais de duas décadas e possui uma longa relação com o futebol. Ele já trabalhou nas categorias de base do Vasco e o casal também atuou durante anos com agenciamento de jogadores.

Kelly contou que inicialmente enxergava o futebol principalmente pela perspectiva de torcedora — ela é torcedora do Flamengo.

O contato com os bastidores mudou essa percepção.

Foi acompanhando histórias de jovens jogadores e entendendo o processo que existe entre descobrir um talento e transformá-lo em atleta que a cantora passou a se interessar pela gestão esportiva.

Quando o casal se estabeleceu em Angola, surgiu a ideia de construir algo próprio.

O Kiala começou a tomar forma em 2023 e posteriormente ganhou estrutura de associação esportiva.

A proposta inicial, porém, estava longe de simplesmente criar um time para disputar campeonatos.

Kiala começou com poucos garotos e virou projeto de formação

Jovens jogadores do Kiala FC posam com a bandeira do clube e um troféu no centro de treinamento da equipe em Angola
Kiala FC trabalha com a formação de jovens jogadores em Angola e mantém categorias de base – Foto: Kiala FC/Divulgação

O projeto nasceu com uma forte função social.

Em seu início, cerca de 15 jovens treinavam em um terreno emprestado. Com investimentos feitos pelo casal, o Kiala ganhou uma estrutura própria em Viana, na região de Luanda.

O número de jogadores cresceu para dezenas de adolescentes distribuídos pelas categorias de formação.

O trabalho também não termina quando o treino acaba.

Além do futebol, os jovens recebem alimentação e têm acesso a iniciativas educacionais e profissionalizantes. O projeto já ofereceu formação em áreas como informática, pintura e mecânica.

Os atletas recebem refeições durante o período em que permanecem no clube e também contam com acompanhamento voltado ao desenvolvimento fora de campo.

Para Kelly, isso é parte essencial da ideia.

Nem todo garoto que passa pelo Kiala conseguirá transformar o futebol em profissão. Por isso, a formação pretende oferecer alternativas para aqueles que não chegarem ao esporte profissional.

Ao mesmo tempo, existe uma ambição esportiva bastante clara.

O casal quer transformar o Kiala em uma referência na formação e na exportação de jogadores angolanos.

Clube de Kelly Key já conquistou títulos em Angola

Kelly Key e Mico Freitas posam ao lado de troféus do Kiala FC diante do escudo do clube angolano
Kelly Key e Mico Freitas com troféus conquistados pelo Kiala FC – Kiala FC/Divulgação

Os primeiros resultados esportivos vieram rapidamente.

O Kiala conquistou títulos do Campeonato Provincial de Luanda nas categorias de base. As campanhas das equipes sub-17 e sub-19 ajudaram, inclusive, a tornar o projeto conhecido no Brasil.

Foi justamente uma publicação de Kelly comemorando essas conquistas que viralizou nas redes sociais em 2025.

Para muita gente, aquela foi a primeira vez que as duas imagens de Kelly Key se encontraram: a cantora que marcou o pop brasileiro dos anos 2000 e a dirigente que aparecia em um campo de futebol na África comemorando troféus conquistados por adolescentes.

A surpresa provocada pela publicação abriu outra porta.

Clubes brasileiros começaram a olhar com mais atenção para o projeto.

Atlético-MG não é o primeiro parceiro brasileiro

O caminho entre Angola e o Brasil já havia começado a ser construído antes do acordo com o Galo.

O Kiala estabeleceu relações com clubes brasileiros com o objetivo de criar oportunidades para que seus jogadores fossem avaliados e desenvolvidos no país.

Um dos exemplos mais concretos aconteceu com o CRB.

Em agosto de 2025, o clube alagoano anunciou uma parceria institucional com o Kiala e recebeu o atacante angolano Cipriano para integrar a equipe sub-20.

Kelly também revelou posteriormente contatos e acordos envolvendo Flamengo e Santos.

A lógica é semelhante: identificar jogadores em Angola, desenvolvê-los no Kiala e criar pontes para que os talentos tenham acesso a estruturas de formação do futebol brasileiro.

É justamente nesse ponto que entra o Atlético-MG.

O que muda com a parceria entre Atlético-MG e Kiala?

O acordo transforma o clube de Kelly Key em um ponto de observação para o Atlético no mercado africano.

O Kiala ficará conectado ao processo de identificação e formação de talentos que possam interessar às categorias de base do Galo.

Para os jovens angolanos, a parceria amplia a possibilidade de serem observados por profissionais de um clube da Série A brasileira e, eventualmente, passar por etapas de desenvolvimento no Brasil.

Para o Atlético, existe outro benefício.

Em vez de começar a busca por jogadores apenas quando eles já aparecem em competições internacionais ou chegam ao futebol profissional, o clube passa a ter uma conexão com atletas ainda em formação dentro de Angola.

A África é uma das grandes fontes de talentos do futebol mundial, mas o caminho até os principais mercados nem sempre é direto.

O Kiala pretende ocupar justamente esse espaço.

Por que o clube se chama Kiala?

Até o nome escolhido por Kelly e Mico ajuda a explicar a proposta.

Segundo a cantora, “Kiala” tem origem no Tchokwe, uma das línguas faladas em Angola, e está associado a ideias como luz e claridade.

O significado também pode remeter a esperança, pertencimento e trajetória.

Para Kelly, o nome acabou sintetizando aquilo que o casal pretendia construir: um lugar no qual o futebol fosse uma possibilidade de transformação, mas não a única.

É uma trajetória bastante distante daquela que tornou seu nome conhecido no Brasil.

Nos anos 2000, milhões de brasileiros conheceram Kelly Key pelos videoclipes, programas de televisão e refrões que se transformaram em hits.

Mais de duas décadas depois, uma visita à Arena MRV mostrou uma personagem diferente.

Kelly Key estava, sim, na arquibancada para assistir a Atlético-MG x Grêmio.

Mas chegou ao estádio não apenas como cantora ou torcedora.

Chegou também como presidente de um clube africano que agora tenta usar uma ponte de quase 7 mil quilômetros entre Angola e Belo Horizonte para transformar garotos da base em jogadores de futebol.

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