
A vitória da França por 1 a 0 sobre o Paraguai, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, terminou em uma forte polêmica fora de campo. Após a eliminação paraguaia, a senadora Celeste Amarilla publicou ataques racistas contra Kylian Mbappé, autor do gol da classificação francesa, e acabou sendo duramente criticada pelo próprio jogador, pela Federação Francesa de Futebol e por autoridades dos dois países.
A crise ganhou novo capítulo quando a parlamentar acusou Mbappé de “violência de gênero” por tê-la chamado de “mulher desprezível” e ameaçou acionar judicialmente o atacante caso ele não se retratasse.
Quem é Celeste Amarilla?
Celeste Josefina Amarilla Goitia é uma advogada e política paraguaia. Nascida em San Juan Bautista, no departamento de Misiones, ela é filiada ao Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) e exerce mandato de senadora desde 2023. Antes disso, foi deputada nacional entre 2018 e 2023, representando a capital do Paraguai.
No cenário político paraguaio, Amarilla é conhecida por um perfil combativo, com falas duras na tribuna e nas redes sociais. Sua trajetória também inclui confrontos públicos com adversários e episódios de grande repercussão no Congresso.
Histórico político e polêmicas no Paraguai
Celeste Amarilla é ligada ao PLRA desde a juventude e participou da organização juvenil do partido. Ao longo da carreira, ocupou cargos em estruturas municipais e estaduais antes de chegar ao Parlamento.
Em 2020, quando ainda era deputada, foi suspensa por 60 dias sem receber salário parlamentar após declarações sobre suposta compra de cadeiras legislativas com dinheiro ilícito. O episódio reforçou sua imagem de política de confronto e marcou sua passagem pela Câmara.
O que Celeste Amarilla disse sobre Mbappé?
A polêmica começou após a vitória da França sobre o Paraguai. Em publicações nas redes sociais, a senadora fez comentários racistas direcionados a Mbappé, atacando sua origem, aparência e identidade. As declarações foram classificadas como ofensivas e discriminatórias por veículos internacionais e por autoridades francesas.
As falas repercutiram imediatamente, principalmente porque Mbappé foi o autor do gol que eliminou o Paraguai e colocou a França nas quartas de final da Copa do Mundo.
“Esse bruto nem aprendeu a escrever. Em vez de leite materno, mamou em cocos, e os seres mais instruídos que ouviu foram chimpanzés. Você deveria ter mostrado o dedo do meio para ele, Orlando Gill; eu faço isso no Senado e não acontece nada”, publicou a senadora paraguaia.

Mbappé respondeu nas redes sociais

Mbappé reagiu publicamente no X. Em francês, o atacante afirmou que Celeste Amarilla era uma “mulher desprezível” e “indigna” do cargo que ocupa. O capitão da França também fez questão de separar a parlamentar do povo paraguaio, elogiando a paixão demonstrada pela torcida durante a Copa.
“Senhora Celeste Amarilla, você é uma mulher desprezível e indigna de sua função. Você não representa o Paraguai, esse país que transpirou paixão e honra ao longo de toda a competição. Por sua inconsciência e seu racismo descomplexado, o mundo inteiro já esqueceu o percurso e o esforço histórico que seus jogadores realizaram durante esta Copa do Mundo, dando lugar a uma senhora incompetente que oferece a pior imagem possível de seu país. Eu nunca deixarei que pessoas como ela tenham a liberdade de propagar seu ódio e seu racismo pelo mundo”, publicou o atacante em publicação do X.
Federação Francesa anunciou medidas legais
A Federação Francesa de Futebol também se manifestou contra as declarações da senadora. Em comunicado oficial, a entidade afirmou que os comentários racistas contra Mbappé eram inaceitáveis e informou que tomaria medidas legais.
“As declarações racistas da senadora paraguaia Celeste Amarilla contra Kylian Mbappé são totalmente repugnantes e inaceitáveis. Como se pode proferir um discurso desses? Essas declarações são criminosas e condenáveis. Elas devem ser processadas aqui como em qualquer outro lugar. A FFF está procedendo a uma denúncia ao Ministério Público para fins de persecução judicial”, publicou a entidade no X.
Segundo a Associated Press, procuradores franceses abriram investigação por insulto público agravado e incitação ao ódio ou à violência após a queixa da federação.
Senadora acusa Mbappé de violência de gênero
Depois da resposta do atacante, Celeste Amarilla publicou uma carta aberta na qual acusou Mbappé de praticar “violência política” e “violência de gênero” ao chamá-la de “mulher desprezível”. Ela também exigiu uma retratação pública e ameaçou processar o jogador.
A nova manifestação foi recebida com críticas nas redes sociais e ampliou a repercussão internacional do caso.
Paraguai se distancia das declarações
O governo paraguaio se distanciou das falas de Celeste Amarilla e afirmou que os comentários não representam a posição oficial do país. Autoridades paraguaias reforçaram compromisso com direitos humanos, igualdade e combate à discriminação.
A Federação Francesa, membros do governo francês e entidades ligadas ao futebol também se posicionaram em apoio a Mbappé, inclusive o presidente francês Emmanuel Macron.
Polêmica ofuscou campanha histórica do Paraguai
A repercussão negativa acabou desviando parte da atenção da boa campanha do Paraguai na Copa do Mundo. A seleção sul-americana chegou ao mata-mata, eliminou a Alemanha nos pênaltis na fase anterior e caiu apenas diante da França, em jogo decidido por um gol de Mbappé.
Com a sequência de declarações, Celeste Amarilla deixou de ser uma figura conhecida principalmente no cenário político paraguaio e passou a ocupar o centro de uma crise internacional envolvendo racismo, esporte e diplomacia.
Leia a carta aberta da senadora Celeste Amarilla para Mbappé na íntegra
“Carta aberta a Mbappé
O problema é entre você e eu. Nunca disse nada contra a França. O meu problema é com você. Estudei em um colégio francês dos 2 aos 17 anos, quando concluí o ensino médio. Sou quem sou graças ao Colégio da Imaculada Conceição e estou onde estou graças à formação que recebi. Cantávamos a Marselhesa, honrávamos a bandeira francesa junto com a nossa, falo francês e adoro visitar a França. No último Natal passei com minha família em Courchevel e recebemos o Ano-Novo em Saint-Tropez. A França não tem nada a ver com isso; o problema é você.
O que me incomoda profundamente é a sua arrogância e o seu desprezo. Antes mesmo da partida, você disse: “Se for preciso colocar as mãos na merda, vamos colocá-las.” Não somos estúpidos. Entendemos perfeitamente que a “merda” era a seleção paraguaia — e a seleção representa todos nós.
Depois você disse que iam “tirar o smoking”. Também entendemos essa provocação: vocês seriam os elegantes de smoking, enquanto nós, pobres e brutos, nem saberíamos o que é um smoking. Mesmo assim, todo o Paraguai permaneceu em silêncio, inclusive eu. Nós suportamos.
Durante a partida, sua atitude foi arrogante. Seu desprezo por cada jogador era evidente, como se eles lhe causassem nojo. Sem sequer cobrir a boca, você disse “la concha de tu madre”, uma expressão extremamente ofensiva na América Latina, e você sabe disso. Foi por isso que a usou.
Por fim, você desrespeitou o cumprimento do nosso goleiro. Isso não se faz. O cumprimento entre adversários após uma partida é quase sagrado, na guerra e na paz, na derrota e na vitória. Você se recusou a apertar a mão dele e gritou sua comemoração na cara dele. Isso não se faz. Em poucos segundos, você demonstrou seu desprezo, sua arrogância e sua falta de educação.
Isso me machucou, e machucou muito todo o meu país. A França deveria cobrar uma postura diferente de você, porque é um país de cavalheiros, com séculos de história e de “savoir-faire”. A França deveria reprovar a sua conduta.
Meus posts foram feitos com o sangue fervendo. Esse sangue mestiço, bela mistura de sangue indígena e espanhol que corre nas minhas veias, estava fervendo quando você zombava daqueles imensos jogadores paraguaios que lutaram de igual para igual até o fim da partida, e por isso escrevi aquelas mensagens.
No entanto, pouco depois me arrependi de ter respondido com os mesmos insultos que eu mesma recebo. Eu também sou desprezada por ser morena, latina; somos chamadas de “sulacas”. Arrependi-me e apaguei a publicação. Percebi que estava repetindo padrões que detesto. Entendo que isso possa tê-lo incomodado, porque é humilhante.
Agora exijo que você também se retrate comigo e me peça desculpas.
Eu também não vou tolerar sua violência. Você não me conhece, não faz ideia de quem eu sou e não tem direito algum de dizer que SOU UMA MULHER DESPREZÍVEL, INDIGNA DO CARGO QUE OCUPO.
Sou senadora da República do Paraguai, eleita pelo voto popular. Antes disso, também fui deputada nacional, igualmente eleita. Milhares de paraguaios e paraguaias votaram em mim e me consideram sua voz. Meu principal compromisso é representar o povo paraguaio, dizer aquilo que eles não podem dizer e defender meu país até o fim da minha vida. É isso que esperam de mim.
Represento meu país porque fui eleita em eleições livres. Fui escolhida para fazer suas leis e ser sua voz. Você não faz ideia do que significa ser eleita para defender seu país e representar seu povo. Fui eleita senadora nacional; não sei se você tem dimensão da importância do cargo que exerço.
Quem é você para me chamar de indigna ou desprezível sem sequer me conhecer?
Isso é violência de gênero, pura e simples. Violência política contra uma mulher que chegou onde está pelo voto popular do seu povo.
Justamente você, que demonstra desprezo por uma mulher. Eu não ataquei sua cor, suas preferências ou qualquer característica pessoal. Você atacou minha condição de mulher e de política.
Retrate-se comigo, honre a cidadania francesa e peça desculpas. Caso contrário, poderei iniciar medidas judiciais por violência de gênero.
Celeste Amarilla”
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