
A classificação da Argentina para a final da Copa do Mundo de 2026 foi marcada por uma polêmica que ultrapassou as quatro linhas. Logo após a vitória por 2 a 1 sobre a Inglaterra, jogadores da seleção campeã mundial estenderam no gramado uma faixa com a frase “Las Malvinas son argentinas” (“As Malvinas são argentinas”), reivindicando a soberania do arquipélago conhecido no Reino Unido como Ilhas Falkland.
O gesto rapidamente ganhou repercussão internacional e provocou uma reação do governo britânico, que solicitou formalmente à Fifa a abertura de uma investigação. A entidade máxima do futebol ainda não anunciou uma decisão definitiva, mas o episódio colocou em evidência as regras que proíbem manifestações políticas durante competições oficiais.
Apesar de o Código Disciplinar da Fifa prever sanções que vão de advertências até, em tese, retirada de títulos, especialistas e os precedentes indicam que uma punição financeira é, hoje, o cenário considerado mais provável.
O que aconteceu após Argentina x Inglaterra?

Depois do apito final da semifinal, alguns jogadores argentinos receberam uma faixa vinda das arquibancadas e a exibiram diante da torcida.
A mensagem fazia referência à histórica reivindicação argentina sobre as Ilhas Malvinas, território administrado pelo Reino Unido desde o século XIX e cuja soberania continua sendo contestada por Buenos Aires.
Segundo relatos de jogadores, a faixa não fazia parte do material oficial da delegação e foi entregue por torcedores durante a comemoração. Ainda assim, a responsabilidade disciplinar pode recair sobre a Associação do Futebol Argentino (AFA), conforme prevê o regulamento da Fifa.
O que diz o regulamento da Fifa?
O Código Disciplinar da Fifa estabelece que associações nacionais e clubes respondem pelo uso de:
- gestos;
- palavras;
- objetos;
- faixas;
- bandeiras;
- qualquer outro meio utilizado para transmitir mensagens de natureza política, ideológica, religiosa ou ofensiva durante eventos oficiais.
Além disso, o Código de Conduta dos Estádios da Copa do Mundo também proíbe expressamente a entrada e a exibição de materiais considerados de natureza política dentro das arenas.
Quais punições a Argentina pode sofrer?
Pela legislação disciplinar da Fifa, as sanções possíveis incluem:
- advertência;
- aviso formal;
- multa financeira;
- outras sanções pecuniárias;
- devolução de premiações;
- retirada de títulos;
- obrigação de cumprir determinações financeiras.
Embora a lista inclua punições extremamente severas, como a perda de títulos, a aplicação depende da gravidade da infração, do contexto e dos precedentes existentes.
Na prática, especialistas em direito desportivo consideram muito improvável que uma manifestação dessa natureza resulte em sanções esportivas capazes de alterar o resultado da Copa do Mundo.
Argentina pode perder o título da Copa do Mundo?
A resposta, neste momento, é sim do ponto de vista teórico, mas a possibilidade é considerada extremamente remota.
O Código Disciplinar contempla a retirada de títulos entre as sanções disponíveis. Entretanto, historicamente, a Fifa reserva esse tipo de medida para infrações muito mais graves, como manipulação de resultados, fraude documental ou violações que comprometam diretamente a integridade da competição.
Nos casos envolvendo mensagens políticas, a entidade tem adotado outro padrão: abertura de processo disciplinar seguida de multa financeira e, eventualmente, advertências.
Existe precedente envolvendo a própria Argentina
O episódio não é inédito.
Em 2014, antes da Copa do Mundo do Brasil, jogadores argentinos posaram para uma fotografia com uma faixa contendo exatamente a mesma mensagem: “Las Malvinas son argentinas”.
Na ocasião, a Fifa puniu a Associação do Futebol Argentino com uma multa de 30 mil francos suíços, sem qualquer consequência esportiva.
Esse antecedente é considerado um dos principais indicativos sobre qual poderá ser o desfecho do novo processo disciplinar.
Outros casos semelhantes no futebol
A Fifa já puniu manifestações políticas em diferentes competições internacionais.
Entre os casos mais conhecidos estão:
- Coreia do Sul (Londres-2012): Park Jong-woo exibiu uma faixa afirmando que “Dokdo é nosso território”, em referência às ilhas disputadas com o Japão. O jogador foi suspenso por dois jogos pela Fifa e impedido temporariamente de receber sua medalha olímpica pelo COI.
- Sérvia (Copa do Mundo de 2022): a federação sérvia foi multada após exibir, no vestiário, um mapa político envolvendo Kosovo antes da partida contra o Brasil.
Esses episódios reforçam que a tendência da Fifa tem sido aplicar punições financeiras e disciplinares, sem interferir nos resultados esportivos.
Reino Unido pediu investigação oficial
Após a semifinal, o secretário de Negócios do Reino Unido, Peter Kyle, classificou a atitude dos jogadores argentinos como “totalmente inadequada” e afirmou que espera uma investigação completa por parte da Fifa.
Já um porta-voz do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, respondeu à manifestação com ironia ao declarar que “a Copa do Mundo pode não ser nossa, mas as Ilhas Falkland certamente são”.
Até a publicação desta reportagem, a Fifa ainda não havia divulgado oficialmente qual será o enquadramento disciplinar do caso, embora veículos espanhóis informem que um procedimento preliminar já foi aberto para apurar os fatos.
Por que a faixa é considerada uma manifestação política?
A mensagem faz referência ao conflito entre Argentina e Reino Unido pela soberania das Ilhas Malvinas.
O arquipélago, localizado no Atlântico Sul, é administrado pelo Reino Unido desde 1833, enquanto a Argentina reivindica o território como parte de seu território nacional.
Em 1982, os dois países travaram a Guerra das Malvinas, conflito que durou 74 dias e terminou com a retomada do controle britânico sobre as ilhas. Morreram 649 militares argentinos, 255 britânicos e três civis locais. Desde então, a disputa permanece aberta no campo diplomático e continua sendo um dos temas mais sensíveis da política externa argentina.
O que deve acontecer agora?
Caso confirme a abertura do processo disciplinar, a Fifa deverá:
- notificar oficialmente a Associação do Futebol Argentino (AFA);
- conceder prazo para apresentação da defesa;
- analisar as imagens, os relatórios dos oficiais da partida e os precedentes;
- divulgar a decisão antes ou após a final da Copa do Mundo, conforme o andamento do processo.
À luz dos precedentes existentes, a expectativa predominante entre especialistas é de que a eventual punição fique restrita a uma multa e, possivelmente, a uma advertência formal, sem impacto esportivo sobre a participação da Argentina na decisão contra a Espanha.
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